terça-feira, 26 de junho de 2007

Um Simples Desejo

Mas uma vez tinha a sensação de que havia acabado de pregar os olhos quando fui acordada pra mais um dia de trabalho pelo meu pai.Era cinco horas da manhã.
--Estou com fome!--Escutei meu irmão, mas novo reclamando para meu pai como fazia todos os dias quando levantava.
--De duas mordidas nesse pão e passe para o resto, apenas duas mordidas ou então não sobrara para de noite.
--E porque pelo tanto que a gente trabalha não consegue mais pão pai?--Perguntou ele de novo começando a deixar meu pai inquieto, e percebendo isso minha mãe veio interferi mandando ele comer logo ou então ficaria sem nada.Quando o pão chegou em mim fechei meus olhos e imaginei que em vez de estar comendo um pão que estava lá em casa já fazia uns quatro dias e começava a ficar verde, estava provando um dos sonhos da padaria em que Luisa trablha.Por mais que eu visse e desejasse aquele sonho era impossível imaginar o sabor dele já que nunca havia colocado um deles em minha boca ou se quer segurado.
--Vitória, pegue os tênis de Luis já que os seus se desfizeram na chuva e vê se dessa fez desvie das poças!--Estava apenas brincando com Matheus mamãe e ainda posso usar eles...
--Não!Seus tênis não dão mais para colocar, já basta seu irmão ter ficado doente por duas semanas e não poder trabalhar.Seria um desfalque na despesa dessa casa se você também ficasse de cama, agora não discuta e vá logo visti-los.--Disse mamãe tirando o pão de Luis que estava pronto para dar uma terceira mordida nele.
A razão de não querer colocar os tênis de meu irmão era que como ele era menor que eu seus pés também eram e isso significava que machucava os meus de uma forma que quando chegava em casa de noite não conseguia nem dormir de tanta dor que sentia.Mas como não tinha jeito e mamãe tinha sido bem especifica que não queria mais ninguém doente em casa fui buscá-los.
--Você acha que um dia ainda comeremos outra coisa a não ser pão e feijão de lata?--me perguntou meu irmão.--Não sei, espero que sim.Tenho esperanças, a Luisa falou que quando eu estiver um pouco mais velha ela ira me ajudar a arrumar um trabalho mais decente que esse, como lavadeira ou atendente como ela.--Pare de falar bobagens e dar esperanças para seu irmão Vitória, viemos de uma família pobre e continuaremos assim.Nao da pra mudar.--Disse minha mãe com um olhar de reprovação que ela sempre dava quando escutava alguém falando em sair da pobreza ou apenas sonhando alto.Botei meus tênis e sai de casa para alcançar meu pai e meus outros irmãos, quando alcancei papai estava discutindo com um outro operário que falava algo sobre salário tinha ouvido varias vezes falarem disso, mas sempre que pediam ou algo parecido à pessoa era posta pra fora da indústria entendi direito o que é, papai uma vez tentou me explicar que tínhamos que ter direito a certas coisas, mas foi bem na hora que estávamos passando pela padaria em que a Luisa trabalha e naquela hora a única coisa que consegui prestar atenção foi o meu tão desejado e querido sonho.--Eles não podem continuar a tratar a gente como animais, pois não somos.Somos nós que fazemos a industria deles andarem, somos nós que damos o dinheiro para eles e é assim que nos tratam?Pior que cachorro molhado.--Falava o operário pro papai e conforme falava aumentava o tom da voz fazendo com que mais trabalhadores, que se dirigiam à indústria, chegassem mais perto.--Vitória isso aqui não é conversa para meninas muito menos crianças.--Disse meu pai--Vá com sua mãe lá atrás.--Minha vontade foi falar que aquele trabalho também não era pra minha idade e muito menos paras meninas, mas entendi a preocupação de meu pai.Ele sempre foi muito protetor, ainda mais comigo que sou a única menina da família.Fui diminuindo meus passos e me encontrei com minha mãe que levava meu irmão menos pelas mãos e conversava com as outras mães sobre algo que Noam me interessava nem um pouco.
--Hei Vitória, olha lá seus sonhos!--Disse meu irmão quando estávamos passando pela padaria estavam eles bem fresquinhos com uma cara implorando para serem comidos por qualquer pessoa que tivesse mais que meras moedas eu não tinha nem uma moeda e esses sonhos eram minha fonte de inspiração, de trabalhar aprender de tudo e mais um pouco juntar dinheiro e poder comprá-los todo dia no café da manhã.
-- Ai vou comprar um para mim e para você meu irmão, te prometo isso.
--Você sabe que mamãe não gosta que a gente prometa coisas que não podemos cumprir.
--E quem disse que não irei?Não posso falar que terei sempre dinheiro para podê-los comer, mas ainda irei experimentá-los é o único desejo que peço a Deus e sei que ele não ira me abandonar.
--Deus a abandonou no momento em que a deixou nascer nessa família Vitoria.-Disse o sindico da industria quando começávamos a entrar sempre fora grosso conosco, nunca entendi porque já que não ganhava maravilhas também.
--Cada um em seu lugar e quero ver todos trabalhando!--Gritou ele conforme íamos entrando...Fui direto para meu lugar.La não podíamos falar e nem ficar olhando muito tempo para os lados que já falavam que não estávamos trabalhando e não nos pagávamos, desculpa que eles adoravam dar.
Depois de ter entrado só parei apos umas 5 horas para poder usar o banheiro, beber meia caneca de água e dar umas beliscadas em alguns feijões, logo apos já estavam de volta a aquele inferno que chamavam de trabalho.
--Vocês deviam estar nos pagando algo descente para fazermos isso, vocês burgueses são uns traidores de palavra lembro das promessas que faziam para meus pais para eles o ajudarem com as suas revoluções...E com as nossas revoluções?Quem ira nos ajudar?
--Cale essa boca se não quiser voltar mais cedo para casa Patrício.--Gritou o sindico vindo em direção ao operário que mais cedo falava com meu pai.
--E o que você ira fazer se todos nós formos embora hein.Não terá mais quem trabalhe por você e coloque dinheiro na sua conta, ai quero ver mandar calar a boca.
--Não seja otário homem, existe umas dez famílias que fariam de tudo para estar no seu lugar recebendo essa merreca que você tanto reclama, se não esta satisfeito vá embora.Melhor eu estou o mandando embora.
E nisso o homen pegou Patrício pelo braço e foi o arrastando ate a saída com ele gritando aos seus ouvidos.Isso era ate normal no nosso meio, o pior era quando alguém se acidentava ou morria como aconteceu há dois dias atras.Marie estava colocando carvão nas máquinas quando se descuidou e se queimou e como não havia nada na hora para poder se apagar o fogo foi se espalhando pelo seu corpo ate ela não agüentar mais.A sorte foi que nesse dia meu irmão mais novo não tinha ido, sorte, se não estaria traumatizado ate agora.Quatro horas depois tocou o alarme informando que estávamos liberados para ir embora.Dirigi-me ao portão onde encontrei com Luisa que estava me esperando do lado de fora.
--Olá Vitória, tudo bom?
--Tudo, e com você?
--To bem.Sua mãe esta por ai?
--Esta sim, porque?
--Consegui um trabalho pra ela lá na padaria e quero ver se ela aceita.
--Mas é claro que ela vai querer, como você conseguiu?
--Bom, o senhor McVet é um patrão muito querido e me disse que da próxima vez que abrisse uma vaga na sua padaria eu poderia escolher uma amiga minha para trabalhar lá, desde que soubesse cozinhar.De primeira pensei em você, mas como você ainda não é uma cozinheira de primeira e ainda tem 13 anos ia ficar meio difícil ele querer te contratar já que ele não trabalha com crianças.
--Olhe a mamãe ali!Mamãe!Mamãe!
--Mas para que esta gritaria toda Vitória, não sou surda, vá procurar seus irmão para podermos ir embora.
--Mamãe a Luisa tem uma noticia muito boa!Conte para ela Luisa, conte, conte, conte!--Gritava eu tão entusiasmada.
--Calma menina!Mas o que você quer me contar Luisa que deixou essa menina nesse estado?
--É que apareceu um trabalho para a senhora na padaria do senhor McVet, queria saber se você pode ir amanhã de manhã comigo lá?
--Mas é claro que poderei, que noticia maravilhosa!
--Pois é!Lá o salário não é uma maravilha, mas é bem melhor do que essa miséria que você recebe aqui.E lá você acaba conhecendo donas de casa que procuram empregadas, passadeiras e coisas desse tipo e acaba ganhando dinheiro por fora.Sem falar que não traz perigo nenhum comparado a trabalhar numa fabrica.
--Concerteza!Amanhã de manhã estarei já na porta esperando, pode ser.
--Sim claro, mas vá arrumada porque o senhor McVet gosta que a apresentação de suas funcionarias impecável mesmo que elas fiquem na cozinha.
--Pode deixar!Agora Vitória vá logo procurar seus irmãos.--Disse mamãe me olhando e vendo que ainda estava parada de seu lado escutando toda a conversa.Corri para encontrar meus irmãos e logo os encontrei jogando dado com uns outros meninos da fábrica que mamãe os chamava e fomos todos embora.
Quando cheguei em casa estava tão entusiasmada que não conseguia dormir em imaginar que estava a um passo de provar meu tão desejado sonho.Minha mãe veio me explicar que mesmo ela trabalhando lá eu não poderia comer de graça lá, eu sabia disso, mas trabalhando lá significa que ela ganharia mais, que ela aprenderia a fazer sonhos tão bons quanto aqueles e me dar para comer.Minha mãe continuou a insistir que não era tão fácil assim, mas meu pai pediu para ela não acabar com os poucos sonhos que eu tinha e nem destruir os brilhos nos meus olhos.
No outro dia acordei tão disposta que fui a primeira a ficar pronta.Mamãe colocou sua melhor roupa e se penteou, coisa que raramente fazia e foi na vizinha pedir um perfume emprestado.Quando ela voltou entupiu a casa com um cheiro de flor-de-lis que fez papai começar a espirrar.Fizemos o mesmo caminho de sempre e quando mamãe chegou na frente da padaria pediu que desejássemos sorte a ela e entrou.
--Sua mãe vai conseguir ela é muito boa em cozinhar, quando tem comida--Disse meu pai mais para si do que para nós.
O resto do dia só consegui pensar se mamãe estava se dando bem e não via a hora de acabar logo o serviço.Obvio que quando viu que mamãe não estava o sindico perguntou o porque da falta dela.Papai explicou o motivo de sua falta.
--Se ela não consegue nem fazer comida para seus filhos mortos de fome imagina para a sociedade.--Zombou ele enquando tava as costas e logo depois gritava que ela havia perdido seu lugar na fábrica ver nos olhos de papai o quando ele estava bravo com comentario, mas não poida fazernada se não seria mandado embora também.
No final do dia, assim que tocou a sineta corri mais que todo mundo para poder chegar na padaria e saber o que tinha acontecido com mamãe.Quando cheguei lá à padaria estava vazia e fiquei parada na porta esperando por mamãe, quando apareceu um senhor muito bem vestido na porta e ficou me olhando.
--Pela descrição você deve ser a Vitória né?--Ele me perguntou com um simpático sorriso no rosto, o que era raro naquela gente rica.
--Sim sou, como você sabe?
--Sua mãe me contou!
--Ela esta ai dentro?Ela esta trabalhando ai?--Perguntei tentando olhar através do homem.
--Sim, ela esta trabalhando aqui agora, uma ótima cozinheira sua mãe hein...Você deve ter muita sorte.
--De que?
--De sua mãe cozinhar desse jeito.
--Não, pois quase sempre não tem comida para ela cozinhar.Para falar a verdade nunca comi uma comida cozinhada pela mamãe, sempre foi a que a fabrica dá pra gente ou os restos que a gente pega dos restaurantes.
--Hum...Isso é uma pena mesmo.Mas entre, entre deve estar morta de fome né?
Estranhei com a pergunta dele, para falar a verdade estranhei toda a conversa.Nunca um senhor daquele jeito tinha sido simpático comigo, raramente quando esse tipo de homem se dirigia a mim era para fazer comentários sarcásticos sobre minha roupa ou outra coisa do tipo.E meu pai sempre falava que todos eram iguais.
--Então?Não vai entrar?--Ele apontou para dentro e de repente vi o meu tão desejado sonho.
--Sim.--Entrei meio desconfiada, mas não tirava os olhos do sonho.Era inacreditável que depois de tanto sonho eu estava a apenas a alguns passos de um sonho que eu desejara mais que minha própria vida.
--Sente enquanto vou chamar sua mãe e avisá-la que você esta aqui.--Ele se foi lá para trás e a minha vontade foi pular em cima do balcão e pegar um sonho daquele para mim.Mas uma coisa que meu pai sempre me ensinou e vivia repetindo para mim e para meus irmãos é o quão horrível é se tornar um ladrão ou algo do gênero, que ele preferia morrer na pobreza junto com os ratos do que se tornar ladrão.E nisso eu concordava com ele.
--Vitória, o que você faz aqui minha filha?
--Vim ver se a senhora conseguiu o emprego minha mãe.
--Ah, sabia que era isso, mas é claro que consegui.Não sabe que sua mãe é uma ótima cozinheira?
--Ai que bom mamãe!Espero só agora que você começar a fazer os sonhos e tudo mais.
--Vitória eu já te expliquei que não é tão fácil assim não é?
--É, eu sei.
--Mas temos uma fã de meus sonhos aqui e eu não sabia?!--O senhor falou se dirigindo para d trás do balcão.
--Ah eu não contei para o senhor McVet?!Ah Vitória é uma grande admiradora desses sonhos.
--Ah é?!E de qual sabor que a mocinha prefere?
--Ué, tem sabor?!--Eu perguntei olhando de Luisa para mamãe.
--Mas claro que tem, qual foi o que você comeu?!--Ele me perguntou olhando com um ar engraçado.
--Nunca comi um senhor.Apenas olho eles e imagino o sabor.--Disse eu meio sem graça olhando para o chão.
--Mas como nunca comeu??Mas isso vai mudar agora!--Ele disse colocando num prato dois sonhos e botando na mesa e fazendo sinal que eu sentasse.
Assustada olhei para minha mãe que me encorajava com as olhas ai ir, então não tive duvidas e fui.Quando sentei na cadeira ele empurrou o prato para mim e mandou eu me servir.Engasguei-me com a minha própria água na boca, mas depois de um tempo retornei ao normal.Peguei o sonho e dei uma bela de uma mordida e não pude acreditar no quão bom era aquele sonho.Mastiguei como se estivesse com um pedaço do céu na minha boca.Depois de comer o primeiro ele fez gesto para eu comer o segundo e sem cerimônias comi.
--Então...Qual é o que ti agradou mais?
--Ah o primeiro, mas o segundo não fica atrás.--Disse limpando minha boca num guardanapo.
--Hum...Então o seu preferido é o mesmo que o meu, de doce de leite.Bom gosto você tem.
--Muito obrigado senhor.
--De nada.E sempre que quiser pode vir comer um que não tem problema.
--Pode deixar--Disse com um sorriso não acreditando que tinha acabado de saborear meu sonho.
--É, mais não é para abusar né Vitoria.Bom agora deixa a gente ir que seu pai já deve estar ficando preocupado.
Despedi-me do senhor e de Luisa que ainda ia ficar para fechar toda loja.Quando estávamos na rua nem acreditei que ainda estava com o gosto tão doce em minha boca.Mamãe pediu para eu não falar com meus irmãos sobre isso se não eles também iriam querer comer lá na padaria e isso poderia prejudicar ela.Quando chegamos em casa meu pai perguntou o porque da demora e se tinha dado tudo certo.Mamãe contou o que tinha acontecido quando ela chegou la na padaria e que ela tinha conseguido o emprego.Nem fiquei para escutar o final da historia, fui para minha cama e nem acreditei quando peguei no sono com o gosto doce ainda em minha boca.Foi uma das noites mais felizes de minha vida.